The Flash Brasil - Anúncio

Após três temporadas seguindo mais ou menos a mesma fórmula, The Flash finalmente tentou inovar. Tentou.

ATENÇÃO! Esse texto contém spoilers da 4ª temporada de The Flash.

 

As premissas

Pela primeira vez na história da série o grande vilão da vez não seria um velocista. Depois de medir forças (ou velocidades) com o inesquecível Flash Reverso, o assustador Zoom e o questionável Savitar, o Flash e sua equipe enfrentariam um tipo diferente de vilão.

Anunciado na San Diego Comic Con de 2017, o principal antagonista da temporada seria o Pensador/Clifford DeVoe (The Thinker, no original). O personagem, criado por Gardner Fox e Everett E. Hibbard, apareceu pela primeira vez na revista All-Flash #12 em 1943, sendo originalmente um antagonista de Jay Garrick e que tem a tecnologia e seu alto nível de inteligência como principais armas.  A parte tecnológica, entretanto, ficaria menos a cargo do Pensador e mais a cargo da Mecânica/Marlize DeVoe (The Mechanic, no original).

As séries de TV da DC/CW já são conhecidas por tomarem certas liberdades criativas quanto às encarnações dos personagens dos quadrinhos na telinha. Dessa vez, as três esquecíveis versões do Mecânico se tornaram uma versão feminina, cuja parceria com o Pensador ia além das tramoias malignas.

A escolha do casal DeVoe como antagonistas da temporada foi uma clara tentativa de espelhar a nova configuração do núcleo de mocinhos da trama. Iris West, agora Iris West-Allen, parece ter abandonado de vez a carreira jornalística e se dedica em tempo integral a liderar a Equipe Flash, muito embora ao final da temporada ela pareça ter reaquecido sua paixão por escrever e talvez vejamos mais disso no próximo ano. Dessa forma, a quarta temporada em pouco tempo estabeleceu um embate entre os casais Allen e DeVoe.

Se na primeira temporada a Equipe Flash precisava lidar com os meta-humanos criados com a explosão do acelerador de partículas, na segunda temporada com a existência do multiverso e na terceira com os meta-humanos do Ponto de Ignição recriados a partir da Pedra Filosofal, a quarta temporada se dedicou a introduzir meta-humanos criados por uma nova onda de Matéria Escura que atingiu Central City, quando Barry Allen foi libertado da Força de Aceleração.

Todos esses acontecimentos, claro, milimetricamente planejados pelo Pensador.

 

Os pontos positivos

O uso de um vilão não velocista após três temporadas sem dúvidas despertou nos fãs a curiosidade sobre como seria a condução do novo ano da série e trouxe um frescor ao multiverso. O primeiro episódio da temporada (S04E01 – The Flash Reborn) apresentou um visual extremamente interessante e relativamente intimidador para o Pensador, apesar das limitações de tempo de pós-produção e de orçamento enfrentados pelo canal.

Também é válido destacar que tanto Neil Sandilands, quando Kim Engelbrecht, intérpretes do Pensador e da Mecânica, respectivamente, trouxeram personalidades bastante particulares aos antagonistas da temporada, mesmo com uma história que em muitos aspectos deixou a desejar.

Ainda no primeiro episódio, o Flash recém-saído da Força de Aceleração voltou em uma versão “tunada”, mais rápido do que nunca e trazendo consigo uma personalidade transtornada, falando uma série de frases desconexas que misturavam passado, presente e futuro, além do desenho de uma série de símbolos. Tudo isso ajudou a estabelecer, desde o início, os mistérios que rondariam a temporada.

Como tem se tornado tradição, a CW novamente promoveu um grande crossover entre as séries de heróis do canal: Supergirl, Arrow, Flash e Legends of Tomorrow. Conforme prometido pelos produtores, esse ano realmente contou com um evento completo de quatro partes, tomando como premissa para a união dos heróis o casamento de Iris e Barry. A ocasião é rapidamente interrompida por uma invasão nazista da Terra-X, onde os heróis são forçados a enfrentar suas contrapartes malignas.

Se a primazia de roteiro e história não deu a letra no crossover desse ano, é sempre interessante ver uma grande quantidade de heróis reunidos em tela e os episódios entregaram altas doses de ação. Além disso, ver Tom Cavanagh dar vida ao Flash Reverso é sempre um prazer nostálgico.

Logo após o crossover fomos apresentados ao episódio da midseason finale (S04E09 – Don’t Run), que marca a maior pausa da série entre o início de dezembro e o início de janeiro. Um episódio que tinha tudo para dar errado, acabou dando muito certo. Trazendo de volta uma personagem caricata e absolutamente desinteressante, Amunet Black, e aparentemente usando um plot que nada tinha a ver com história principal da temporada, o roteiro faz ambos se cruzarem ao final do episódio. Tudo isso introduz uma das melhores e mais inesperadas reviravoltas da série, dando início na TV à adaptação de um famoso arco dos quadrinhos: o Julgamento do Flash (saiba mais aqui).

Desde o início da série, The Flash vasculha o baú dos mais de 80 anos de história da DC Comics e traz à TV personagens que jamais pensaríamos que veríamos adaptados em outra mídia. O próprio Pensador, usado como ameaça principal da temporada, não figura entre a primeira prateleira de vilões da editora. Nesse sentido, personagens como Null, Norvock, Killg%re, entre outros, acabam ganhando a chance de serem representados na telinha, mesmo que em episódios procedurais.

Por fim, a quarta temporada da série tentou agradar gregos e troianos ao estabelecer para a personagem Caitlin Snow uma dupla personalidade com a Nevasca, numa dinâmica clássica baseada em O Médico e o Monstro. Nessa temporada temos a oportunidade de ver um desenvolvimento da personagem sem impor a ela um interesse amoroso aleatório. Entre seus conflitos, aceitar a existência de uma segunda personalidade, lidar com a dor de perdê-la e a luta para recuperá-la, inclusive introduzindo um plot que pode ser bem explorado: o fato de que a existência da Nevasca precede a explosão do acelerador de partículas.

 

Os pontos negativos e o efeito barriga cheia

Uma palavra pode definir o desenrolar da 4ª temporada de The Flash: saturação.

Apesar das tentativas de trazer algo novo para a jogada, uma lista de fatores contribui para que a série venha deixando muitos fãs com gosto de “quero mais” já há algum tempo. Certamente ter um dos seus principais produtores (Andrew Kreisberg) envolvido em uma série de denúncias de assédio sexual no final do ano passado, o que provocou sua demissão sumária, não ajudou.

Um problema enfrentado por The Flash desde a segunda temporada, que foi agravando-se ao longo dos anos, é a dificuldade de diluir o plot principal da temporada ao longo de 23 episódios, de maneira a manter sua audiência engajada e curiosa com os rumos da série. Ao melhor estilo novela, a 4ª temporada de The Flash enrola seu público com subtramas desimportantes para entregar alguns poucos momentos que de fato valem nosso tempo.

Outras emissoras adotam a prática de subdividir a temporada em duas partes, A e B, com histórias distintas para cada uma delas, em séries como Teen Wolf, Gotham e Shadowhunters. Embora não seja necessariamente a receita do sucesso, é uma estratégia interessante que, entretanto, não deve ser adotada pela The CW.

As dificuldades da produção em fazer essa diluição e ao mesmo tempo tentar renovar os ares e “trazer de volta o tom leve” do show, acabaram entregando uma temporada pouco interessante e bastante arrastada.

A introdução do Homem-Elástico, alter ego do ex-policial-corrupto-redimido Ralph Dibny, pouco acrescentou à trama. Sendo um dos afetados pela matéria escura oriunda da libertação de Barry da Força de Aceleração e objeto central dos planos de DeVoe, ora era usado como alívio cômico galhofa e desmedido, ora tentava-se dar a ele um peso dramático de luta pela própria sobrevivência.

Além disso, a indecisão sobre querer ou não se tornar um herói foi abordada em mais de um episódio da temporada, gerando uma sensação de dejà vu extremamente desagradável. Por fim, Ralph torna-se apenas mais um caso de um personagem apresentado para que possa, na sequência da temporada, ser assassinado pelo vilão. A reviravolta de seu retorno no último episódio também pouco convenceu, tornando genérico o embate entre Flash e o Homem-Elástico na mente de DeVoe, subestimando muito os poderes que o supervilão demonstrou ter ao longo do quarto ano da série.

Agora imagine a seguinte situação: uma discussão acalorada acontece no Cortex, alguém fala algo que não devia ou ignora um determinado ponto de vista, um personagem tem um surto e deixa os demais falando para as paredes, saindo da sala e sendo sumariamente seguido por alguém. Esse alguém faz um discurso motivacional recheado de frases de efeito, trilha sonora dramática ao fundo e tudo volta a ser arco-íris e pôneis cor-de-rosa. Nesse caso estou me referindo a… basicamente todo mundo. Certamente Harry, Cisco, Ralph e todos os outros personagens já passaram por um momento similar a esse durante a série e, o que foi emocionante da primeira vez, deixou de sê-lo na décima sétima ocasião.

Se o núcleo da boa vizinhança não agradou, a parte vilanesca da história tampouco foi bem explorada, mesmo tendo dois episódios dedicados a mostrar o passado de ambos (S04E07 – Therefore I Am, S04E20 – Therefore She Is). Apesar de em alguns momentos ter se mostrado um vilão interessante, DeVoe muitas vezes sofreu com um roteiro preguiçoso e motivações questionáveis, se tornando apenas mais um antagonista que quer dominar o mundo e acaba derrotado aos 45 do segundo tempo com a ajuda de seu ex-ajudante convertido.

Um último ponto importante e que não pode ser ignorado é o efeito barriga cheia. Cinco anos atrás, em 2013, Arrow era a única série de “heróis” consolidada na TV, com uma pegada pé no chão e uma certa vergonha de se assumir. De lá para cá muita coisa mudou, e muito rápido. Séries e filmes adaptados de quadrinhos multiplicam-se por todas as plataformas, o nerd virou pop e o que era nicho virou programa de família.

Esse fato tem duas consequências básicas. A primeira delas é o excesso de conteúdo disponível, que quase sempre deixa a sensação que aquilo já foi visto em algum lugar, nos tornando consumidores cada vez mais exigentes de um produto com reduzidas novidades a apresentar. Em segundo lugar, é necessário agradar um público crescentemente abrangente, o que consiste em uma tarefa muito desafiadora.

 

O que esperar da 5ª temporada?

Algumas sementes foram plantadas ao longo da atual temporada da série, com destaque para a história da Garota Misteriosa. Ao final do último episódio, revelaram que se tratava de Nora, filha de Barry e Iris que veio do futuro e disse ter cometido um “grande erro”. Para saber mais sobre a origem dos filhos de Barry e Iris nos quadrinhos, clique aqui.

Entretanto, uma série de outras coisas permaneceram em aberto, como explicações para a existência da Nevasca antes da explosão do acelerador; o fato de Harry ter deixado a Equipe Flash ao final do último episódio, dando espaço para apresentação de um novo Wells, conforme confirmou o produtor Todd Helbing; a relação entre Nora e os símbolos misteriosos e o porquê Harry, após ser a cobaia do Iluminismo de DeVoe, balbuciou as mesmas frases que Barry ao ser libertado da Força de Aceleração. Além disso, deve ser estabelecida uma nova dinâmica na Equipe Flash, uma vez que o Homem-Elástico pode entrar de vez para o time.

Como de costume, a CW deve fazer um painel com suas séries na San Diego Comic Con, onde são apresentadas as primeiras novidades relevantes das novas temporadas e devemos ficar sabendo quem será o antagonista da vez, bem como quem será seu intérprete. A San Diego Comic Con acontecerá entre os dias 19 e 22 de julho de 2018.

Por outro lado, durante o Upfronts desse ano o ator Stephen Amell (Oliver Queen / Arqueiro Verde) declarou que o próximo crossover das séries de herói da CW envolverá Gotham City e, pela primeira vez na história, trará uma versão em live action da Batwoman, adicionando mais um personagem LGBTQI+ ao CW-verse.

E você, está ansioso para o 5º ano da série?

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